edusinconsistentblog

Herói brasileiro

Essa copa do mundo nos deu muito a refletir e, felizmente, muito a escrever. Hoje acordei com uma nova reflexão: a sede do brasileiro por um herói.

Isto não é algo novo, muito menos estranho. Historicamente, povos desejam heróis em momentos difíceis nos quais o alcance do poder individual simplesmente não é, ou aparenta, ser suficiente para resolver um enorme problema. Nessa copa, os heróis foram evidentes nas figuras de Carlo Ancelotti e Neymar Jr. Interessantemente, a figura de Vini Jr., possivelmente o jogador mais hábil da seleção, e um dos que mais entregaram na Copa, não se tornou, ao ver da maioria dos brasileiros, tão heróica quanto a de Neymar, apesar de sua atuação incomparavelmente superior à do ídolo da Baixada Santista. Basta lembrar de suas experiências vendo os jogos do Brasil nessa copa em espaços públicos ou junto à sua família. Quando Neymar entrava em campo, a comoção era de gol.

Carlo Ancelotti entrou para a seleção brasileira como uma figura quase messiânica, e na cabeça dos brasileiros - eu me culpo disso - veio para finalmente trazer o tão querido "hexa", após 24 anos de jejum. A verdade é que no futebol, por melhor que seja o técnico, quem faz o jogo são os jogadores. A baixa performance de vários no elenco, somada a decisões ruins de Mr. Ancelotti e à possível pressão por parte da CBF para colocar certos jogadores em campo, foram, ultimamente, os motivos de nossa eliminação, ao menos em um escopo curto, comparado a anos de má gestão e uma cultura que mais valoriza soluções milagrosas ao invés da paciência e do trabalho duro.

O Japão, por exemplo, apesar de ter sido eliminado por nós na primeira fase das eliminatórias, fez um excelente trabalho nessa copa, empatando com a imponente Holanda e goleando a Tunísia por 4-0 na fase de grupos. E vale ressaltar que este era um dos grupos mais desafiadores dessa competição, contando também com a Suécia de Alexander Isak. A eliminação dos japoneses também não veio fácil. Nos cravaram um jogo tenso exibindo jogadores extremamente habilidosos e ataques perigosos. O Japão, um país que por muitos anos não possuía uma cultura futebolística tão promissora quanto a nossa, em pouco tempo se tornou uma das mais queridas e respeitadas seleções no cenário global. Enquanto o Brasil passou por quatro técnicos em um período de 30 meses, o Japão manteve o seu time sob o comando de Hajime Moriyasu por 8 anos. Seu longo trabalho foi remunerado por levar o Japão de uma equipe que não dava medo a ninguém a um sério adversário e, mais importantemente, um legítimo contestante a vencer a copa do mundo.

Faz parte de nossa condição desejar heróis; somos carentes, e heróis muitas vezes nos servem de inspiração para nos tornarmos melhores. O problema é que isso se mostra insustentável quando nossa única fonte de esperança depende das virtudes dessas figuras. Heróis não são perfeitos. Todos os nossos heróis são humanos e, por natureza humana, erram. Por isso acredito que deveríamos ser nossos próprios heróis quando possível, pois pelo menos quando erramos estamos no domínio de nossas próprias crises. Se a carência por heróis fosse resumida ao futebol, tudo bem. O perigo é que, como cultura, nós tendemos a depender de heróis em todas as áreas de nossa sociedade, desde a política até nossas vidas profissionais.

Herói Japonês

De certa forma, os japoneses não acreditam em heróis, pelo menos não como nós, brasileiros. No mangá "Ping Pong", pelo mestre desenhista Taiyo Matsumoto, um dos temas centrais é o conceito do herói. A história gira em torno de dois amigos de infância que competem no ping pong durante o colegial, amadurecendo e tornando-se jovens adultos no processo.

A frase "O herói está vindo, o herói está vindo, diga essas palavras em sua mente e eu irei a você" repete-se diversas vezes ao longo da narrativa, criando uma grande expectativa ao redor da mística figura do herói. Vale apontar agora que vou dar um spoiler, mas prometo que ainda vale a pena ler o mangá (ou assistir à sua adaptação de anime). Um dos amigos, "Smile", vem perdendo seu amor pelo esporte independentemente de seu tremendo talento. Smile é muito superior no ping pong comparado a todos os seus colegas - ele é simplesmente imbatível. Seu amigo Peco, por outro lado, vem praticando e se tornando cada vez melhor no esporte, no qual ele é apaixonado.

A narrativa se intensifica durante um importante campeonato interescolar, e a possibilidade do duelo entre os dois amigos de infância pela final do campeonato se torna inevitável. Smile, preparando-se para o tão aguardado confronto final, recita a frase do herói uma última vez, e o mesmo se revela na forma de seu amigo Peco. Cara a cara com seu amigo de infância, Peco joga a partida como se fosse o cúmulo de toda sua experiência vivida, derrotando seu amigo Smile em uma partida épica. Smile, por sua vez, sorri após não ter sorrido por muitos anos. O ato heróico de Peco não é uma solução milagrosa. Muito pelo contrário; é um desafio. Um desafio que dignifica a derrota de seu adversário e tão querido amigo.

O que faz do herói são seus atos heróicos. Sem os mesmos, o herói não passa de um mortal, como você e eu. O que eu mais admiro na questão do herói é o fato de que, quanto mais desafiador o problema, maior o feito heróico quando o mesmo é resolvido. A dificuldade, o sofrimento e a vulnerabilidade humana do herói são o que o torna tão ilustre a todos nós.

Acho que está claro para a maioria de nós que nossa seleção atual está longe do heroísmo dos nossos times de 2002, 1994, 1970, 1962 e 1958. Mas o que é preciso estar mais claro ainda é que, sem atos heróicos, árduos e desafiadores, não chegaremos à nossa próxima conquista mundial. E se perdemos novamente, após muito esforço, como perdemos em 1982, pelo menos teremos uma grande derrota de um time guerreiro a se comemorar com um leve sorriso no rosto.